O sentido da liturgia
Por Clarício de Araújo
Na Grécia antiga, a palavra liturgia era empregada para
designar algum serviço feito pelo povo ou para o povo; obra pública ou serviço
público. Só então a partir da tradução da Bíblia, hebraica para o grego nos
séculos III e I antes de Cristo é que o termo liturgia passou a ser usado para
indicar os serviços dos sacerdotes no templo de Jerusalém.
Já no Novo Testamento, o termo passou a significar diversas
coisas, inclusive o mesmo que o da época antiga: a coleta pública feita por
Paulo, diferenciando-se apenas que nessa outra realidade, passa a ter ligação
entre as noções de liturgia e de caridade e, algumas vezes referiu-se ao culto
do templo de Jerusalém.
Nos Atos dos Apóstolos, esta palavra refere-se à celebração
do culto em honra ao Senhor, já não mais como aquele que era realizado no
templo, mas o culto adotado pelos cristãos, quando então a epístola aos Hebreus
denomina Cristo de ministro, em grego “liturgo”, que detém um ministério “liturgia”
superior. Liturgia ainda complementa esse sentido, designando a própria vida
cristã, entendida como oferta de todo o nosso ser a Deus e ao próximo.
No Oriente, o uso da palavra liturgia se estabeleceu para
designar somente a celebração eucarística, enquanto no Ocidente, a partir do
papa Gregório XVI é que o termo passou a ser usado oficialmente. Porém, a
Igreja usou outras denominações para indicar o ato celebrativo, como,
mysterium, cultus, devotio, religio, caeremoniae, ritus. A liturgia tem muitas
dimensões, e uma delas é a ação de Deus, que nos amou primeiro; movimento da
descida de Deus ao povo, também chamado de catabático e de ascensão do povo, de
anabático.
Portanto, a celebração eucarística, é a manifestação do
mistério pascal de Cristo, onde os convidados para a Ceia do Senhor têm esse
encontro pessoal com o próprio Deus, ou seja, Deus desce sobre o povo e ao
mesmo tempo, o povo sobe até Deus, através de louvores, cânticos e orações. Por
essa razão, o culto prestado à Santíssima Trindade na liturgia é algo que
ultrapassa as nossas manifestações físicas; Paulo, escrevendo aos cristãos de
Colossos, disse: “esse mistério é Cristo em vós”.
A celebração da missa é sagrada e não deve servir para exibicionismo,
atos cívicos e outras manifestações que tirem o sentido da eucaristia, como
música sem conteúdo litúrgico ou que apresente reflexão espiritual (apenas
durante a adoração ao Santíssimo). O ato requer ambiente devidamente apropriado
e decorado de acordo com a sua finalidade, isso é, com as alfaias referentes ao
tempo litúrgico, inclusive a Mesa da Palavra (Ambão). Em tempo algum o espaço
deve ser “decorado” com temas específicos ou com excesso de objetos (apenas o
Natal e fora da nave central.)
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