sexta-feira, 3 de outubro de 2025

 

O sentido da liturgia

Por Clarício de Araújo

Na Grécia antiga, a palavra liturgia era empregada para designar algum serviço feito pelo povo ou para o povo; obra pública ou serviço público. Só então a partir da tradução da Bíblia, hebraica para o grego nos séculos III e I antes de Cristo é que o termo liturgia passou a ser usado para indicar os serviços dos sacerdotes no templo de Jerusalém.

Já no Novo Testamento, o termo passou a significar diversas coisas, inclusive o mesmo que o da época antiga: a coleta pública feita por Paulo, diferenciando-se apenas que nessa outra realidade, passa a ter ligação entre as noções de liturgia e de caridade e, algumas vezes referiu-se ao culto do templo de Jerusalém.

Nos Atos dos Apóstolos, esta palavra refere-se à celebração do culto em honra ao Senhor, já não mais como aquele que era realizado no templo, mas o culto adotado pelos cristãos, quando então a epístola aos Hebreus denomina Cristo de ministro, em grego “liturgo”, que detém um ministério “liturgia” superior. Liturgia ainda complementa esse sentido, designando a própria vida cristã, entendida como oferta de todo o nosso ser a Deus e ao próximo.

No Oriente, o uso da palavra liturgia se estabeleceu para designar somente a celebração eucarística, enquanto no Ocidente, a partir do papa Gregório XVI é que o termo passou a ser usado oficialmente. Porém, a Igreja usou outras denominações para indicar o ato celebrativo, como, mysterium, cultus, devotio, religio, caeremoniae, ritus. A liturgia tem muitas dimensões, e uma delas é a ação de Deus, que nos amou primeiro; movimento da descida de Deus ao povo, também chamado de catabático e de ascensão do povo, de anabático.

Portanto, a celebração eucarística, é a manifestação do mistério pascal de Cristo, onde os convidados para a Ceia do Senhor têm esse encontro pessoal com o próprio Deus, ou seja, Deus desce sobre o povo e ao mesmo tempo, o povo sobe até Deus, através de louvores, cânticos e orações. Por essa razão, o culto prestado à Santíssima Trindade na liturgia é algo que ultrapassa as nossas manifestações físicas; Paulo, escrevendo aos cristãos de Colossos, disse: “esse mistério é Cristo em vós”.

A celebração da missa é sagrada e não deve servir para exibicionismo, atos cívicos e outras manifestações que tirem o sentido da eucaristia, como música sem conteúdo litúrgico ou que apresente reflexão espiritual (apenas durante a adoração ao Santíssimo). O ato requer ambiente devidamente apropriado e decorado de acordo com a sua finalidade, isso é, com as alfaias referentes ao tempo litúrgico, inclusive a Mesa da Palavra (Ambão). Em tempo algum o espaço deve ser “decorado” com temas específicos ou com excesso de objetos (apenas o Natal e fora da nave central.)


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